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21 de mar. de 2011

Vida em Cristo Crucificado do Beato Angelo Paolo O.Carm

"O mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor é o mistério central da nossa fé e o eixo em volta do qual gira toda a história da salvação. A cruz é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta, escuridão e luz, símbolo de morte e tortura, símbolo de vida para o crente. O mistério da cruz prolonga-se na nossa vida de uma forma particularmente intensa no mistério dos crucificados: as vítimas do pecado em todas suas formas, as vítimas do mal, da violência e da injustiça."





"O Carmelo teve ao longo dos séculos uma profunda e íntima devoção pela cruz. Basta recordar, entre muitos outros: S. João da Cruz, que evoca a morte do Pastorinho-amante, Cristo, “numa árvore onde abriu os seus belos braços” (P 10); Santa Teresa de Jesus que, chamando atrevidamente a cruz de “bem-vinda” (P 7), nos convidava a fixar os olhos no crucificado para que tudo “nos pareça pouco” (7M 4,8); João de S. Sansão e Santa Maria Madalena de’ Pazzi que descobriram que a cruz é a melhor atalaia para contemplar o céu; Francisco da Cruz, carmelita castelhano dos s. XVI-XVII que foi em peregrinação a Jerusalém, carregado com uma pesada cruz pesada de madeira; Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, que se consome no desejo de ir para terras de missão para aí plantar a “cruz gloriosa” (Ms B, IX, 3rº); Edith Stein, que mergulha na profundidade insondável da Ciência da cruz; ou o Beato Tito Brandsma, pregando sobre uma gaveta sebenta, na Sexta-feira Santa de 1942 no campo de concentração de Amersfoort, tendo escrito, pouco antes, na prisão de Scheveningen, o seu célebre poema Perante um quadro de Jesus na minha cela, onde confessa: “a Cruz é a minha alegria, não a minha dor”. A esta lista seria necessário acrescentar, sem dúvida alguma, a figura do frade pobre Ângelo Paoli, também ele apaixonado pela cruz de Cristo.



O Beato Ângelo Paoli viveu esta devoção profundamente e difundiu‑a pastoralmente ao longo de toda a sua vida. Já entre os pastores das montanhas próximas da sua aldeia, quando, ainda jovem frade, por lá esteve convalescente ao longo de vários meses, difundira aquela devoção, convidando-os a erigir cruzes no alto das montanhas e pregando‑lhes com grande afeto. Mais tarde, pároco de Corniola, também propagou esta devoção, e, já em Roma, é muito célebre o facto de ter erguido várias cruzes em lugares emblemáticos da cidade, tais como o Monte Testaccio ou o Coliseu. Aproveitando a proximidade do nosso convento de S. Martinho aos Montes, o P. Ângelo visitava a Igreja da Santa Cruz de Jerusalém e, de regresso da mesma, detinha-se a cuidar dos doentes do hospital de S. João de Latrão, levando-lhes comida, socorrendo-os nas suas necessidades mais básicas e animando-os continuamente, chegando mesmo a distraí-los com teatros improvisados ou músicas. O P. Ângelo morreu, beijando devotamente crucifixo. A iconografia insistiu frequentemente neste ponto.



O Carmelo dos nossos dias encontra no testemunho do novo Beato uma esplêndida fonte de inspiração, e, mais ainda, um apelo provocador. A nossa vocação contemplativa faz-nos penetrar na espessura das noites escuras mais dolorosas e sangrentas da nossa regeneração, onde vislumbramos a presença misteriosa do Senhor da vida. Não só isto, mas o novo Beato também soube “descobrir” ao longo da sua vida novas formas de pobreza: pobrezas escondidas ou pobrezas ignoradas, perante as quais a sociedade do seu tempo mostrava pouca ou nenhuma sensibilidade. O P. Ângelo teve a sensibilidade suficiente para perceber o sofrimento das jovens que, por falta de dinheiro, vinham a desembocar numa vida celibatária praticamente sinónima de miséria; o sofrimento dos que abandonavam os hospitais, uns, convalescentes, outros, fisicamente recuperados, mas que, de qualquer forma, acabavam por cair na mendicidade; o sofrimento das famílias arruinadas em consequência das inundações do rio Tibre; o sofrimento dos que se curavam das suas doenças, mas que sofriam a solidão, a tristeza e o abandono. Da sua atenção a todos estes grupos constam exemplos maravilhosos na biografia do nosso Carmelita. O seu testemunho leva-nos pois a abrir os olhos do coração, a escutar os frémitos do nosso tempo e a responder generosa e solidariamente às novas formas de pobreza e de marginalização criadas pela nossa sociedade.


O P. Ângelo também viveu intensamente a sua vocação carmelita. De facto, foi uma vocação bem meditada e discernida, uma vez que entrou no convento só depois de previamente ter recebido a tonsura e de ter pensado noutras formas possíveis de vida religiosa. Segundo os seus biógrafos, poderia ter sido a devoção mariana a incliná-lo para o Carmelo, a Ordem de Maria.


Tal como corresponde à piedade carmelita daquele tempo, o P. Ângelo viveu com zelo a vida conventual e os sinais que serviam para expressar o amor à Ordem e à sua espiritualidade e tradições. Amante do seu hábito (sinal, para ele, de pobreza e não de distinção), cumpridor fiel da observância religiosa, apesar das suas múltiplas ocupações, obediente aos superiores, fraterno e próximo dos irmãos da comunidade… o P. Ângelo foi um carmelita exemplar, um homem que viu na sua vocação Carmelita, não um impedimento ou um fardo, mas antes um incentivo e uma fonte de inspiração para o seu trabalho social com os pobres.

É realmente comovedora a cena das últimas horas do P. Ângelo. Ele, agonizando, rodeado pelos irmãos da sua comunidade, perfeitamente consciente e assumindo a sua morte com um verdadeiro espírito de fé e de piedade… Lá fora, na pequena praça em frente do convento, comparecem os pobres, os mendigos, os andrajosos, os necessitados, os doentes… para dar o último adeus àquele que tinha sido para eles um verdadeiro pai nesta terra.


Que o Beato Ângelo Paoli continue a acompanhar-nos na nossa tarefa em prol dos mais necessitados. Que nós saibamos aprender dele e da sua atitude para com os mais pobres. Que a Nossa Mãe do Carmelo, Estrela do Mar, nos ilumine e guie na hora de levar adiante tão admirável repto.





Fernando Millán Romeral, O.Carm.
Prior Geral
19 de Março de 2010 - Solenidade de São José



 

Responsorio:
O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte:
(Oh vós todos que passais pela via, vinde e vede:)
* Si est dolor similis sicut dolor meus.
(* Se há dor parecida com a minha dor. )
V. Attendite, universi populi, et videte dolorem meum.
(V. Vinde, todas as pessoas, e vede a minha dor.)
* Si est dolor similis sicut dolor meus.
(* Se há dor parecida com a minha dor. )

 

24 de jan. de 2010

Espiritualidade Carmelitana - Introdução

Espiritualidade Carmelitana



O primeiro estilo de vida carmelita, nos anos em que surgiu e permaneceu na Terra Santa (Israel) foi eremita. Mas com a migração para a Europa teve de se adaptar às novas exigências. De eremítico-contemplativa a Ordem torna-se Mendicante com especial acento contemplativo. A espiritualidade da nova geração de carmelitas na Europa se encaminha a um equilíbrio entre contemplação e ação. Assim, o antigo eixo “contemplação-ação” vem a ser um fio condutor no desenvolvimento da espiritualidade carmelitana, e, ao mesmo tempo, oferece a possibilidade para captar a fisionomia própria. O ideal da vida carmelitana, especialmente o seu aspecto contemplativo, começa configurar-se em duas pessoas que, desde o início inspiraram a vida e a devoção dos carmelitas: o Profeta Elias, célebre em toda a literatura patrística-monástica como o protótipo e modelo dos solitários e contemplativos, e a Virgem Maria, venerada pelos carmelitas junto a fonte de Elias, como a “Domina loci” (Senhora do lugar), a padroeira.


A espiritualidade do Carmelo é a espiritualidade da união com Deus ou a intimidade divina. A união com Deus é a maneira de ser e de atuar do Carmelo, tanto em seu interior como no apostolado externo. É a idéia central de seu programa de vida, que está organizado em função desse fim. Este é o carisma que herdamos desde o princípio da Ordem e que nossos santos místicos, Teresa e João da Cruz, souberam expressar tão bem. Contudo eles não fizeram mais que recolher e acentuar o que, desde as origens elianas, vinha constituindo como a síntese carmelitana.


Os elementos básicos do nosso ser Carmelita os encontramos na nossa Regra de vida. Na sua introdução está aquilo que é o básico de todas as Ordens e Congregações: “viver no obséquio de Cristo e a Ele servir com coração puro e em boa consciência”. Ser, pois, carmelita, é aspirar à intimidade com Deus, meta sublime que se alcança mediante uma ascensão progressiva. É a “subida do Monte Carmelo”, tão belissimamente descrita por São João da Cruz, onde no cimo se realiza o encontro transformante com Deus.


O teor da vida carmelitana é centrado na busca da solicitude coletiva e individual para obter a união com Deus na oração: “Permaneça cada um na sua cela ou nas vizinhanças da mesma, meditando dia e noite a Lei do Senhor e vigiando na oração, a menos que esteja ocupado em outra justa ocupação”.



Para se chegar a esta união, o Carmelo nos oferece os meios.

O primeiro meio para esta união com Deus é a ascese. Ascese é uma palavra que significa purificação, libertação de tudo o que atrapalha na vivência desta intimidade, deste encontro com o Amado, de maneira que a pessoa possa chegar a Deus com um coração puro. Este trabalho purificador vai dispondo pouco a pouco a pessoa para uma progressiva ascensão, despojando-a do peso que impede de voar livremente. A pessoa vai se libertando das coisas materiais e terrenas, para que se adquira agilidade no caminhar (pobreza); libertação do peso do corpo, de maneira que fique livre das ataduras da sensualidade (castidade); libertação do egoísmo, de maneira que a pessoa se abra à orientação de outros mais experientes (obediência).


O silêncio e a solidão vieram ser uma das notas características do Carmelo. É algo integrante da sua vida. A Regra do Carmelo nos ensina: “No silêncio e na esperança está vossa fortaleza”. Silêncio e solidão são duas armas iluminadoras do Carmelita. São os acumuladores onde a alma se eleva e se enriquece para cumprir sua dupla missão de ativo e contemplativo.


O fim do Carmelo é a intimidade divina na contemplação; e para isto toma como meio mais eficaz a oração, que vivifica os atos do carmelita. É sua principal ocupação. Com razão pode dizer o Papa Leão XIII: “Sem a oração nada é o Carmelo”. Um elemento fundamental do ser carmelita é o da fraternidade, mas uma fraternidade orante. Nossa atitude contemplativa faz descobrir Deus presente nas nossas experiências quotidianas, leva-nos a encontrá-lo especialmente nos nossos irmãos. Assim se expressam as atuais Constituições: “Como fraternidade contemplativa, buscamos o rosto de Deus e servimos a Igreja no coração do mundo ou, eventualmente, na solidão eremítica”.



O CARISMA CARMELITA
Volta a Fonte



Um carisma é um dom de Deus para a Igreja e para o mundo. Uma vez que ninguém pode esgotar as riquezas de Cristo, que é a imagem perfeita de Deus (2 Cor. 4, 4), cada carisma existente na Igreja exprime um aspecto da missão de Cristo na proclamação da Boa Nova e, através da Sua morte e ressurreição, a missão de reconciliar a humanidade inteira com Deus. O carisma carmelita não é propriedade exclusiva da Família Carmelita; nós somos depositários e temos o sagrado dever de o transmitir às gerações frituras e de o partilhar com as pessoas com quem convivemos. Naturalmente, cada geração deixa a sua marca no carisma pela maneira como o entende e o vive. Que espécie de marca deixaremos nós?


Nos anos sessenta, o Concílio Vaticano II exortou todas as Ordens Religiosas a reexaminar as suas origens e a compreender melhor o ímpeto inicial da sua fundação. Não se encontra, nos princípios da Ordem Carmelita, um fundador famoso, mas um grupo de homens que chegaram ao Monte Carmelo de várias partes da Europa e que procuraram viver em obséquio de Jesus Cristo na terra onde Ele próprio viveu e morreu. Mais tarde, este grupo, desejoso de uma estrutura formal e de um reconhecimento oficial por parte da Igreja, pediu a Alberto, Patriarca de Jerusalém, que lhe redigisse uma fórmula de vida adaptada a eles. Ele acolheu o pedido dos eremitas entre 1206 e 1214 e este documento foi aprovado como “Regra” pelo Papa Inocêncio IV, em 1247, com algumas pequenas modificações que permitiram aos eremitas carmelitas viver como frades no meio do povo.

Esta Regra é inspiração para muitas e variadas formas de vida carmelita no mundo de hoje. A Ordem do Carmo, como a maior parte dos grupos religiosos antigos, atravessou momentos escuros e momentos de luz na história da sua vida. Os Carmelitas Descalços formam outro grande ramo do mesmo tronco e, hoje, as duas Ordens mantêm excelentes relações e estão em diálogo contínuo.


O Carmelo centra-se em Jesus Cristo, a quem nós seguimos e nos empenhamos em servir. Os grandes modelos da nossa forma de vida são a Virgem Maria e o profeta Elias. Com eles temos também a inspiração dos grandes santos do Carmelo: Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Teresinha do Menino Jesus, o Beato Tito Brandsma e muitos outros.
O valor central do carisma carmelita é a contemplação entendida como uma íntima relação com Deus em Jesus Cristo, que transborda numa vida de oração e fraternidade, na qual procuramos servir o nosso próximo conforme os nossos dons particulares e a nossa vocação. A contemplação não é somente algo para alguns cristãos; todos somos chamados a ser íntimos amigos de Deus e a nossa amizade com Deus produzirá efeitos notáveis na vida quotidiana. Não podemos amar a Deus, a quem não vemos, se não amamos o nosso próximo, que vemos (1 Jo. 4, 20). Por isso os Carmelitas exprimem o seu amor a Deus em qualquer tipo de serviço ao seu próximo e procuram seriamente viver em harmonia com os seus irmãos e irmãs.


A Família Carmelita compreende religiosos e religiosas que se dedicam ao apostolado e vivem em comunidade, monjas de clausura que vivem a sua vocação em comunidade de vida, de oração e de sacrifício pelo bem do mundo, eremitas e muitos leigos que vivem em famílias ou sozi¬nhos. Tentamos viver os valores da oração, da fraternidade e do serviço, conforme a nossa vocação particular.


Quando iniciamos seriamente uma relação com Jesus Cristo, esta nos levará a um processo de transformação. Gradualmente, mudará o modo como percebemos a realidade e vivemos no mundo. As vezes, esta mudança pode ser dolorosa, porque nos vemos realmente como somos, não como pensamos que somos, mas este sofrimento transformar-se-á em alegria, quando, pouco a pouco, nos convertermos naquilo que Deus sabe que podemos ser.


A Santíssima Virgem Maria e o profeta Elias

Todos nós Carmelitas encontramos na Virgem Maria a nossa Mãe e Irmã, que nos acompanha ao longo de toda a vida e continuamente nos mostra, com o seu exemplo, como conservar tudo o que nos acontece, de modo que possamos discernir a presença e a ação de Deus na nossa vida (cfr. Lc. 2, 19). Ela teve e tem a mais íntima relação com Jesus e anima-nos a estar junto d’Ele e a fazer tudo o que Ele manda (Jo. 2, 5). Ela é o modelo da bem aventurança “felizes os puros de coração”, e ensina-nos a reconhecer as nossas motivações e a pô-las de acordo com os valores do Evangelho.



Também o profeta Elias, uma das grandes figuras do Antigo Testamento, é, na sua experiência de Deus e na sua atividade profética, uma inspiração para todos os Carmelitas; no monte Horeb encontrou a Deus no silêncio (1 Re. 19, 12), em Israel denunciou a injustiça e demonstrou o vazio da idolatria. Os Carmelitas procuram a presença de Deus neles mesmos e ajudam outros a descobrir esta mesma presença na própria vida e assim a fugir das redes dos numerosos ídolos modernos que escravizam o coração do homem.




O futuro

O novo milênio orienta as nossas mentes para o futuro e para os desafios que enfrentaremos. Os Carmelitas continuarão a servir a Igreja e o mundo com vários tipos de apostolado. A fonte de toda a atividade deve ser o resultado de uma relação viva com Jesus Cristo, que se mos¬tra no desejo de servir o povo de Deus. Nossa Senhora do Carmo nos guie para a montanha santa, que é Cristo Senhor, porque só nEle encontraremos a nossa verdadeira felicidade. Desejo que todos os membros da Família Carmelita sejam fiéis ao carisma que Deus nos deu para o serviço da Igreja e do mundo.

Pe. Joseph Chalmers - OC - Prior Geral do Carmelitas


*Retirado da Revista “Os Carmelitas” do Centro Internacional

de Informação da Ordem do Carmo (CITOC) – Roma – Itália.

7 de nov. de 2009

A Santidade ao Alcançe de Todos


A SANTIDADE AO ALCANCE DE TODOS
Heriberto Monroy, OCD

Atualmente fala-se muito sobre espiritualidade, formas e métodos de oração. Muitos segmentos de nossa sociedade, em meio ao consumismo e ao materialismo, buscam preencher o vazio existencial com métodos orientais de meditação e exercícios mentais. Trata-se de um impulso do homem moderno que busca “transcender-se”, “buscar Deus”, de forma nem sempre correta e simples.

Santa Teresinha do Menino Jesus viveu a espiritualidade mais simples, aquela que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos: “deixem que os pequenos venham a Mim e não se lhes proíbam, porque deles é o reino dos céus”(Mt 19,14). Ela viveu uma vida muito simples, mas de grande santidade. A palavra “santidade” nos soa hoje como algo do passado ou que interesse apenas às monjas. Dizer “eu quero ser santo” não agrada aos ouvidos, pode parecer loucura ou presunção. Mas, sem dúvida, todos somos chamados à ‘santidade’. Poderemos nos perguntar, mas como posso ser santo neste mundo, neste estado de vida que escolhemos, na vida matrimonial, na vida familiar, no trabalho, na vida cotidiana? Em que consiste a santidade?

Santa Teresinha nasceu em Alençon, Franca, no dia 2 de janeiro de 1873. Foi batizada com o nome de Maria Francisca Teresa Martin. Seus pais Luís Martin e Zélia Martin, quando jovens aspiraram ingressar na vida religiosa, mas Deus tinha outros planos para eles: formar uma família verdadeiramente cristã. De fato, suas cinco filhas ingressaram na vida religiosa: Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresa. Leônia ingressou no Convento da Visitação e as outras no Carmelo Descalço.

Teresinha ficou órfã de mãe aos três anos de idade. Suas irmãs se encarregaram de sua educação e formação cristã. Este é um exemplo de como a formação dos pais é tão importante na geração de bons cristãos.

Teresinha viveu uma infância muito feliz, de modo especial por ser a “predileta” de seu pai. Teve também momentos difíceis, como a longa enfermidade que não pôde ser bem compreendida pelos médicos da época. Teresinha foi curada milagrosamente ao contemplar uma pequena imagem da Virgem Maria cujo semblante se transformou e resplandeceu uma surpreendente formosura. Teresinha nos conta que Nossa Senhora respirava bondade e ternura inefáveis. Mas o que atingiu o mais íntimo de sua alma foi o sorriso encantador da Santíssima Virgem. A partir de então foi curada de sua terrível enfermidade.

Aos 14 anos, mergulhada num mar de escrúpulos, e depois de pedir insistentemente a Jesus que a curasse, recupera a saúde numa noite de Natal. Ela chamará esta graça de “a graça do Natal”.
Logo após esta cura recebe de Deus o chamado para o Carmelo. Ela não quer duvidar, mas pede a Deus que confirme o seu desejo. Deus lhe dá o sinal que é um pedido e confirmação de sua vocação. Ele a deseja na vida religiosa, para que ofereça suas orações e sofrimentos para a conversão dos pecadores.

Teresinha pede a Deus a conversão para um criminoso condenado à morte que não apresentava nenhum sinal de arrependimento. Deus escuta e responde às preces de Teresinha. No último momento, prestes a ser executado, o homem se aproxima do crucifixo que antes havia repelido, beija-o e pede perdão a Deus.

Através desta prova ela não mais duvidará que Deus a chama para o Carmelo, para onde vai, segundo seu próprio testemunho, “salvar almas e rezar especialmente pelos sacerdotes”.


Devido à sua pouca idade (quinze anos), negam-lhe a entrada no Convento. Porém, cheia de amor a Deus, visita o bispo que lhe nega o ingresso no Carmelo. Mas ela viaja a Roma com seu pai para falar com o Papa Leão XIII, que lhe diz: “Será feito o que Deus quiser”. Ao regressar a Lisieux encontra as permissões solicitadas e entra no Carmelo Descalço no dia 9 de abril de 1888.

Sua vida no Carmelo foi de um imenso amor a Deus através de uma vida de grande simplicidade, humildade, amabilidade e capacidade de serviço para com suas companheiras, especialmente com aqueles que não a tratavam bem. Em seus escritos ela nos diz: “desde o princípio encontrei mais espinhos que rosas, o sofrimento me abriu os braços e eu o aceitei com amor”.

Sofreu diversas provações espirituais e começa o calvário de sua enfermidade (tuberculose) no dia 3 de abril de 1896, em uma Sexta-feira santa. Enfermidade que a irá aniquilando por um ano e meio, mas que a fortalecerá sua vontade e seu amor a Deus, levando-a a aceitar sua dor com paciência e amor, pela salvação das almas.

No dia 30 de setembro de 1897, pelas sete e vinte da noite, morre Santa Teresinha depois de uma agonia de dois dias. Suas últimas palavras, depois de aceitar prosseguir sofrendo pela salvação das almas, foram: “Eu vos amo, meu Deus, eu vos amo!” Depois de proferir estas palavras, tocaram-se os sinos e a comunidade se reuniu para testemunhar o êxtase da santa moribunda.

As “Últimas Palavras” nos relatam: “Seu rosto recobrou a cor que possuía quando gozava de plena saúde, seus olhos estavam fixos para o alto, refulgentes de paz e alegria. Fazia certos movimentos com a cabeça como se alguém a houvesse ferido com uma flecha de amor e logo retirava a flecha para voltar a feri-la de novo. Irmã Maria da Eucaristia aproximou uma vela para ver de perto seu sublime olhar. Suas pupilas, à luz da vela, não apresentavam nenhuma reação. Ela prosseguia olhando para o alto e sorrindo... e depois exalou o último suspiro conservando seu sorriso”.


Muitos poderão se perguntar: o que terá a nos ensinar uma monja que morreu aos vinte e quatro anos. Eu diria: muita coisa! Seus ensinamentos revolucionaram a Igreja de seu tempo e essa revolução continua ocorrendo. Muitos religiosos e sacerdotes devem-lhe a vocação; muitos jovens solteiros e casais encontram nela um exemplo para viver sua vida cristã com humildade, simplicidade e sobretudo com um imenso amor e confiança em Deus.

Como Santa Teresinha se tornou padroeira das Missões se nunca saiu do seu Convento? muitos poderão questionar. Porque ela valorizou a oração e o sacrifício oferecidos a Deus para o bem dos outros. Esta é a razão de ser da vocação à Vida Contemplativa: viver em amorosa e constante intimidade com Deus. Quero usar uma comparação para esclarecer o que é a Vida Contemplativa.

Ela é com uma boa mãe que por amor a seu filho enfermo fica em casa cuidando dele, não tendo para essa mãe nenhum valor as festas e compromissos sociais, porque o amor é mais forte. Na vida Contemplativa, a pessoa acompanha Jesus constantemente, se não abatido por alguma enfermidade, ao menos sedento de amor, pedindo-nos amor pelo muito que nos ama e a quem só retribuímos com desprezo e ingratidões. Esta foi a queixa de amor que Nosso Senhor Jesus Cristo fez a Santa Margarida Maria de Alacoque quando lhe mostrou seu Sagrado Coração. A mesma queixa de amor ele prossegue nos fazendo hoje.

Os pilares que sustentam a doutrina de Santa Teresinha são o Amor e a Confiança em Deus. A maior graça de sua vida foi compreender a Misericórdia de Deus para com os pequenos e pobres, porque são com os que mais acolhem a Deus. Ela nos dá exemplo de sua simplicidade na vida de oração, com confiança total e absoluta em Deus. Confiar e crer em Deus era para ela, esperar contra toda esperança sabendo que é Deus quem nos faz perfeitos não por nossas próprias obras ou méritos, mas porque nos deixamos guiar por Ele.

Ela encontrou e definiu sua missão na Igreja e nos diz: “minha vocação, finalmente a encontrei.... MINHA VOCAÇÃO É O AMOR. Sim, eu encontrei meu lugar na Igreja e foste tu, Deus, quem me deste este lugar. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o AMOR”.

Como Santa Teresinha, cada um tem uma missão na Igreja, no povo de Deus. Ele mesmo nos escolheu para tal missão e nos dotou de capacidades e aptidões para tanto. Deus não nos envia à guerra sem armas!

Santa Teresinha iniciou sua missão na terra oferecendo sua oração e sacrifício para salvar almas. Ela esta convicta que após sua morte continuaria trabalhando para a nossa salvação. Ela escreveu: “Quando eu morrer, minha missão começará. Farei cair sobre a terra uma chuva de rosas (de graças) sobre todas as almas, para que amem e façam amar a Deus”.