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20 de mar. de 2008

A PAIXÃO DOLOROSA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

MEDITAÇÃO SOBRE A PAIXÃO DOLOROSA
DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
Por São Pio de Pietrelcina - Padre Pio
Em nome do Pai + e do Filho + e do Espírito Santo.Amém.
(por-se na presença de Deus...fazer um ato de detestação dos pecados)
Oração Preparatória

Espírito Divino iluminai a minha inteligência, inflamai o meu coração, enquanto medito na Paixão de Jesus. Ajudai-me a penetrar nesse mistério de amor e sofrimento do meu Deus, que, feito homem sofre, agoniza, morre por mim.
Meditação :

Ó Eterno, ó Imortal, descei até nós para sofrer um martírio inaudito, a morte infame sobre a cruz no meio dos insultos, de impropérios e ignomínias, a fim de salvar a criatura que o ultrajou e continua a atolar-se na lama do pecado.

O homem saboreia o pecado e, por causa do pecado, Deus está mortalmente triste; os tormentos duma agonia cruel fazem-no suar sangue!...

Não, não posso penetrar neste oceano de amor e de dor sem a ajuda da vossa graça, ó meu Deus. Abri-me o acesso à mais íntima profundidade do coração de Jesus, para que eu possa participar da amargura que o conduziu ao Jardim das Oliveiras, até às portas da morte — para que me seja dado consolá-lo no seu extremo abandono. Ah! Pudesse eu unir-me a Cristo, abandonado pelo Pai e por Si próprio, a fim de expirar com Ele!

Maria, Mãe das Dores, permiti que eu siga Jesus e participe intimamente da sua Paixão e do seu sofrimento!

Meu Anjo da guarda velai para que as minhas faculdades se concentrem todas na agonia de Jesus e nunca mais se desprendam... No termo da sua vida terrestre, depois de se nos ter inteiramente entregue no Sacramento do seu amor, o Senhor dirige-se ao Jardim das Oliveiras, conhecido dos discípulos, mas de Judas também. Pelo caminho ensina-os e prepara-os para a sua Paixão iminente convida-os, por Seu amor, a sofrer calúnias, perseguições até à morte, para os transfigurar à semelhança dele, modelo divino. No momento de começar a sua Paixão amaríssima, não é nele que pensa; pensa em ti.

Que abismos de amor não contém o seu Coração! A sua Santa Face é toda tristeza, toda ternura. As suas palavras jorram da profundidade mais íntima do seu coração, e são todas palpitação de amor.

— Ó Jesus, o meu coração perturba-se quando penso no amor que vos obriga a correr ao encontro da vossa Paixão. Ensinastes-nos que não há amor maior que dar a vida por aqueles a quem se ama. Eis que estáis prestes a selar estas palavras com o vosso exemplo.

No Jardim da Oliveiras, o Mestre afasta-se dos discípulos e só leva três testemunhas da sua Agonia: Pedro, Tiago e João. Eles, que o viram transfigurado sobre o Tabor, terão força para reconhecer o Homem-Deus neste ser, esmagado pela angústia da morte?

Ao entrar no Jardim disse-lhes: “Ficai aqui! Velai e rezai para não cairdes em tentação. Acautelai-vos, porque o inimigo não dorme. Armai-vos antecipadamente com as armas da oração para não serdes surpreendidos e arrastados para o pecado. É a hora das trevas”. Tendo-os exortado, afastou-se à distância de uma pedrada e prostrou-se com a face em terra. A sua alma está mergulhada num mar de amargura e extrema aflição. É tarde. Na lividez da noite agitam-se sombras sinistras. A Lua parece injetada de sangue. O vento agita as árvores e penetra até aos ossos. Toda a natureza como que estremece de secreto pavor!

Ó noite, como nunca houve outra semelhante.

Eis o lugar onde Jesus vem orar. Ele despoja a sua santa Humanidade da força à qual tem direito pela sua união com a Divina Pessoa, e mergulha-a num abismo de tristeza, de angústia, de abjeção. O seu espírito parece submergir-se...

Via antecipadamente toda a sua Paixão.

Vê Judas, seu apóstolo tão amado, que o vende por alguns dinheiros. Ei-lo a caminho de Getsêmani, para o trair e entregar! Todavia, ainda há pouco não o alimentou com a sua carne, não lhe deu a beber o seu sangue? Prostrado diante dele, lavou-lhe os pés, apertou-os contra o coração, beijou-os com os seus lábios. Que não fez ele para o reter à beira do sacrilégio, ou pelo menos para o levar a arrepender-se! Não! Ei-lo que corre para a perdição... Jesus chora. Vê-se arrastado pelas ruas de Jerusalém onde ainda há alguns dias o aclamavam como Messias. Vê-se esbofeteado diante do sumo-sacerdote. Ouve os gritos: À morte! Ele, o autor da vida, é arrastado como um farrapo de um para outro tribunal. O povo, o seu povo tão amado, tão cumulado de bênçãos, vocifera contra Ele, insulta-o, reclama aos gritos a sua morte, e que morte, a morte sobre a cruz. Ouve as suas falsa acusações. Vê-se flagelado, coroado de espinhos, escarnecido, apupado como falso rei.

Vê-se condenado à cruz, subindo ao Calvário, sucumbindo ao peso do madeiro, trêmulo, exausto...

Ei-lo chegado ao Calvário, despojado das roupas, estendido sobre a cruz, impiedosamente trespassado pelos pregos, ofegante entre indizíveis torturas... Meu Deus! Que longa agonia de três horas, até sucumbir no meio dos apupos da gentalha, ébria de cólera!

Ei-lo com a garganta e as entranhas, devoradas por sede ardente. Para estancar essa sede, dão-lhe vinagre e fel.

Vê o Pai que o abandona, e a Mãe, aniquilada pela dor.

Para acabar, a morte ignominiosa no meio de dois ladrões. Um reconhece-o, e pôde salvar-se; o outro blasfema e morre réprobo.

Vê Longuinhos, que se aproxima para lhe trespassar o coração.

Ei-la, consumada, a extrema humilhação do corpo e da alma, que separam...

Tudo isto, cena após cena, passa diante dos seus olhos, apavora-o, acabrunha-o

Recusará?

Desde o primeiro instante tudo avaliou, tudo aceitou. Porque, pois, este terror extremo? É que expôs a sua santa humanidade como escudo, captando os ataques da Justiça, ultrajada pelo pecado.

Sente vivamente no espírito, mergulhado na maior solidão, tudo o que vai sofrer.

Para tal pecado, tal pena... Está aniquilado, porque se entregou, ele próprio, ao pavor, à fraqueza, à angústia.

Parece ter chegado ao auge da dor. Está de rastos, com a face em terra, diante da Majestade do Pai. Jaz no pó, irreconhecível, a santa Face do Homem-Deus, que goza da visão beatífica. Meu Jesus! Não sois Deus? Não sois o Senhor do Céu e da Terra, igual ao Pai? Para que haveis de abaixar-vos até perder todo o aspecto humano?

Ah, sim... Compreendo! Quereis ensinar-me, a mim, orgulhoso, que para entender o Céu devo abismar-me até ao fundo da Terra. É para expiar a minha arrogância que vos deixais afundar no mar da agonia. É para reconciliar o Céu com a Terra que vos abaixais até à terra como se quisesseis dar-lhe o beijo da paz...

Jesus ergue-se, volve para o céu um olhar suplicante, ergue os braços, reza. Cobre-lhe o rosto mortal palidez! Implora o Pai que se desviou dele. Reza com confiança filial, mas sabe bem qual o lugar que lhe foi marcado. Sabe-se vítima a favor de toda a raça humana, exposta à cólera de Deus ultrajado. Sabe que só ele pode satisfazer a Justiça infinita e conciliar o Criador com a criatura. Quer, reclama que seja assim. A sua natureza, porém, está literalmente esmagada. Insurge-se contra tal sacrifício. Todavia, o seu espírito está pronto à imolação e o duro combate continua. Jesus, como podemos pedir-vos para sermos fortes, quando vos vemos tão fraco e acabrunhado?

Sim, compreendo! Tomastes sobre vós a nossa fraqueza. Para nos dardes a vossa força, vos tornastes a vítima expiatória. Quereis ensinar-nos como só em vós devemos depositar confiança, até quando o céu nos parece de bronze.

Na sua Agonia, Jesus clama ao Pai: “Se é possível, afasta de mim este cálix”. É o grito da natureza que, prostrada, recorre cheia de confiança ao Céu. Embora saiba que não será atendido, porque não deseja sê-lo, contudo ora. Meu Jesus, por que pedis o que não podeis obter? Que mistério vertiginoso! A mágoa que vos dilacera vos faz mendigar a ajuda e conforto, mas o vosso amor por nós e o desejo de nos levar a Deus vos faz dizer: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”.

O seu coração desolado tem sede de ser confortado, tem sede de consolação. Docemente, Ele levanta-se, dá alguns passos vacilantes; aproxima-se dos discípulos; eles, pelo menos, os amigos de confiança, hão de compreender e partilhar da sua mágoa...

Encontra-os mergulhados no sono. De súbito sente-se só, abandonado! “Simão, dormes?” pergunta docemente a Pedro. Tu, que há pouco me dizias que querias seguir-me até à morte!

Vira-se para os outros. “Não podeis velar uma hora comigo?”. Uma vez mais, esquece os sofrimentos, não pensa senão nos discípulos: “Velai e orai para não cairdes em tentação!”. Parece dizer “Se me esquecestes tão depressa, a mim, que luto e sofro, pelo menos no vosso próprio interesse, velai e orai!”.

Mas eles, tontos de sono, mal o ouvem.

Ó meu Jesus, quantas almas generosas, tocadas pelos vossos lamentos, vos fazem companhia no Jardim da Oliveiras, compartilhando da vossa amargura e da vossa angústia moral. Quantos corações têm respondido generosamente ao vosso apelo através dos séculos! Possam eles vos consolar e, comparticipando do vosso sofrimento, possam eles cooperar na obra da salvação! Possa eu próprio ser desse número e vos consolar um pouco, ó meu Jesus!

Jesus volta ao local da oração e apresenta-se-lhe diante dos olhos um outro quadro bem mais terrível. Desfilam diante dele todos os nossos pecados, nos seus mais ínfimos pormenores. Vê a extrema vulgaridade dos que os cometem. Sabe a que ponto ultrajam a divina Majestade. Vê todas as infâmias, todas as obscenidades, todas as blasfêmias que mancham os corações e os lábios, criados para cantar a glória de Deus. Vê os sacrilégios que desonram padres e fiéis. Vê o abuso monstruoso dos sacramentos, instituídos por Ele para nossa salvação, e que facilmente podem ser causa de nos perdermos.

Tem de cobrir-se com toda a lama fétida da corrupção humana. Tem de expiar cada pecado à parte, e restituir ao Pai toda a glória roubada. Para salvar o pecador, tem de descer a esta cloaca. Mas, isto não o detém. Vaga monstruosa, essa lama rodeia-o, submerge-o, oprime-o. Ei-lo em frente do Pai, Deus da Justiça, Ele, Santo dos Santos, vergado ao peso dos nossos pecados, tornando-se igual aos pecadores. Quem poderá sondar o seu horror e a sua extrema repugnância? Quem compreenderá a extensão da horrível náusea, do soluço de desgosto? Tendo tomado todo o peso sobre ele, sem exceção alguma sente-se esmagado por monstruoso fardo, e geme sob o peso da Justiça divina, em face do Pai que permitiu ao Seu filho se oferecesse como vítima pelos pecados do mundo, e se transformasse numa espécie de maldito.

A sua pureza estremece diante desta massa infame mas ao mesmo tempo vê a Justiça ultrajada, o pecador condenado... No seu coração defrontam-se duas forças, dois amores. Vence a Justiça ultrajada. Mas, que espetáculo infinitamente lamentável! Este homem, carregado com todos os nossos crimes. Ele, essencialmente Santidade, confundido, embora exteriormente, com os criminosos... Treme como um folha.

Para poder afrontar esta terrível agonia abisma-se na oração. Prostrado diante da Majestade do Pai, diz: “Pai, afasta de mim este cálice”. É como se dissesse: “Pai, quero a tua glória! Quero o cumprimento da tua justiça. Quero a reconciliação do gênero humano. Mas não por este preço! Que eu, santidade essencial, seja assim salpicado pelo pecado, ah! não... isso não! Ó pai, a quem tudo é possível, afasta de mim este cálice e encontra outro meio de salvação nos tesouros insondáveis da tua sabedoria. Porém, se não quiseres, que a tua vontade, e não a minha, se faça!


Desta vez ainda, fica sem efeito a prece do Salvador. Sente a angústia mortal, ergue-se a custo em busca de consolação. Sente como as forças o abandonam. Arrasta-se penosamente até junto dos discípulos. Uma vez mais, encontra-os a dormir. A sua tristeza torna-se mais profunda. E contenta-se simplesmente em os acordar. Sentiram-se confusos? Sobre isto nada sabemos. Só vemos Jesus indizivelmente triste. Guarda para ele toda a amargura deste abandono.

Mas Jesus, como é grande a dor que leio no teu coração, transbordante de tristeza. Vos vejo afastando-vos dos vossos discípulos, ferido, todo magoado! Pudesse eu dar-vos algum reconforto, consolar-vos um pouco... mas, incapaz de mais nada, choro aos vossos pés. Unem-se às vossas as lágrimas do meu amor e da minha compunção. E elevam-se até ao trono do Pai, suplicando que tenha piedade de nós, que tenha piedade de tantas almas, mergulhadas no sono do pecado e da morte.

Jesus volta ao lugar onde rezara, extenuado e em extrema aflição. Cai, sim, mas não se prostra. Cai sobre a terra. Sente-se despedaçado por angústia mortal e a sua prece torna-se mais intensa.

O Pai desvia o olhar, como se Ele fosse o mais abjeto dos homens.

Parece-me ouvir os lamentos do Salvador:

Se, ao menos as criaturas por causa de quem eu tanto sofro quisessem aproveitar-se das graças obtidas através de tantas dores! Se, ao menos reconhecessem pelo seu justo valor, o preço pago por mim para resgatar e dar-lhes a vida de filhos de Deus! Ah! este amor despedaça-me o coração, bem mais cruelmente do que os carrascos que irão, em breve, despedaçar-me a carne...

Vê o homem que não sabe, porque não quer saber; e blasfema do Sangue Divino e, o que é bem mais irreparável, serve-se desse Sangue para sua condenação.

Quão poucos o hão de aproveitar, quantos outros correrão ao encontro do próprio extermínio!

Na grande amargura do Seu coração, continua a repetir: “Quæ utilitas in sanguine meo? Quão poucos aproveitaram o meu Sangue!

O pensamento, porém, deste pequeno número basta para afrontar a Paixão e morte.

Nada existe, não há ninguém que possa dar-lhe sombra de consolação. O Céu fechou-se para Ele. O homem, embora esmagado ao peso dos pecados, é ingrato e ignora o seu amor. Sente-se submerso num mar de dor e grita no estertor da agonia: “A minha alma está triste até a morte”.

Sangue Divino, que jorras, irresistivelmente do Coração de Jesus, corres por todos os seus poros para lavar a pobre Terra ingrata. Permite-me que eu te recolha, Sangue tão precioso, sobretudo estas primeiras gotas. Quero guardar-te no cálice do meu coração.

És prova irrefutável deste Amor, única causa de teres sido vertido. Quero purificar-me através de ti, Sangue preciosíssimo! Quero com ele purificar todas as almas, manchadas pelo pecado. Quero oferecer-te ao Pai.

É o sangue do seu Filho Bem-Amado que caiu sobre a Terra para a purificar. É o Sangue do seu Filho que ascende ao Seu trono para reconciliar a Justiça ultrajada. A alegria é na verdade muito mais veemente do que a dor.

Jesus chegou então ao fim do caminho doloroso?

Não. Ele não quer limitar a torrente do seu amor! É preciso que o homem saiba quanto ama o Homem-Deus. É preciso que o homem saiba até que abismos de abjeção pode levar amor tão completo. Embora a Justiça do Pai esteja satisfeita com o suor do Sangue preciosíssimo, o homem carece de provas palpáveis deste amor.

Jesus seguirá pois até ao fim: até à morte ignominiosa sobre a cruz. O contemplativo conseguirá talvez intuir um reflexo desse amor que o reduz aos tormentos da santa agonia no Jardim das Oliveiras. Aquele, porém, que vive, entorpecido pelos negócios materiais, procurando muito mais o mundo do que o Céu, deve vê-lo também pelo aspecto externo, pregado à cruz, para que, ao menos, o comova a visão do seu Sangue e a Sua cruel agonia.

Não. o Seu coração, transbordante de amor, não está ainda contente! Domina-o a aflição, e ora de novo: “Pai, se este cálice não pode ser afastado, sem que eu bebe, faça-se a Tua vontade”.

A partir deste instante, Jesus responde do fundo do seu coração abrasado de amor, ao grito da humanidade que reclama a sua morte como preço da Redenção. À sentença de morte que seu Pai pronuncia no Céu, responde a Terra reclamando a sua morte. Jesus inclina a sua adorável cabeça: “Pai, se este cálice não pode ser afastado, sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade”.

E eis que o Pai lhe envia um anjo de consolação. Que alívio pode um anjo oferecer ao Deus da força, ao Deus invencível, ao Deus Todo-Poderoso? Mas este Deus quis tornar-se inerme. Tomou sobre os ombros toda a nossa fraqueza. É o Homem das Dores, em luta com a agonia.

Ora ao Pai por Si e por nós. O Pai recusa atendê-lo, pois deve morrer por nós. Penso que o anjo se prostra profundamente diante da Beleza eterna, manchada de pó e sangue, e com indizível respeito suplica a Jesus que beba o cálice, pela glória do Pai e pelo resgate dos pecadores.

Rezou assim, para nos ensinar a recorrer ao Céu, unicamente quando as nossas almas estão desoladas como a Sua.

Ele, a nossa força, virá ajudar-nos, pois que consentiu em tomar sobre os ombros todas as nossas angústias.

Sim, meu Jesus, é preciso que bebais o cálice até ao fundo! Estais votado à morte mais cruel. Jesus, que nada possa separar-me de vós, nem a vida nem a morte! Se, ao longo da vida, só desejo unir-me ao vosso sofrimento, com infinito amor, ser-me-á dado morrer convosco no Calvário e convosco subir à Glória. Se vos sigo nos tormentos e nas perseguições tornar-me-eis digno de vos amar um dia, no Céu, face a face, convosco, cantando eternamente o vosso louvor em ação de graças pela cruel Paixão.

Vede! Forte, invencível, Jesus ergue-se do pó! Não desejou Ele o banquete de sangue com o mais forte desejo? Sacode a perturbação que o invadira, enxuga o suor sangrento da face, e, em passo firme dirige-se para a entrada do Jardim.

Onde ides, Jesus? Ainda há instantes, não estavas empolgado pela angústia e pela dor? Não vos vi eu, trêmulo, e como que esmagado sob o peso cruel das provações que vão tombar sobre vós? Aonde ides nesse passo intrépido e ousado? A quem vais entregar-vos?

— Escuta, meu filho. As armas da oração ajudaram-me a vencer; o espírito dominou a fraqueza da carne. A força foi-me transmitida, enquanto orava, e agora eis-me pronto a tudo desafiar. Segue o meu exemplo e arranja-te com o Céu, como eu fiz. Jesus aproxima-se dos apóstolos. Continuam a dormir! A emoção, a hora tardia, o pressentimento de alguma coisa horrível e irreparável, a fadiga — e ei-los mergulhados em sono de chumbo. Jesus tem piedade de tanta fraqueza. “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Jesus exclama. “Dormi agora e repousai”. Detém-se por instante. Ouvem que Jesus se vai aproximando, e entreabrem os olhos...

Jesus continua a falar: “Basta. É chegada a hora; eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos; eis que se aproxima o que me há de entregar”. Jesus vê todas as coisas com os seus olhos divinos. Parece dizer: Meus amigos e discípulos, vós dormis, enquanto que os meus inimigos velam e se aproximam para virem prender-me! Tu, Pedro, que há pouco te julgavas bastante forte para me seguir até na morte, também tu dormes agora! Desde o princípio tens-me dado provas da tua fraqueza! Está, porém, tranqüilo. Aceitei sobre mim a tua fraqueza e rezei por ti. Depois de confessares a tua falta, serei a tua força e apascentará os meus rebanhos...

E tu, João, também tu dormes? Tu, que acabavas de sentir as pulsações do meu coração, não pudeste velar uma hora comigo!

Levantai-vos, vamos partir, já não há tempo para dormir. O inimigo está à porta! É a hora do poder das trevas! Partamos. De livre vontade, vou ao encontro da morte. Judas acorre para trair-me, e eu vou ao seu encontro. Não impedirei que se cumpram à risca as profecias. Chegou a minha hora: a hora da misericórdia infinita.

Ressoam os passos; archotes acesos enchem o jardim de sombras e púrpura. Intrépido e calmo, Jesus avança seguido pelos discípulos.

— Ó meu Jesus, dai-me a vossa força quando a minha pobre natureza se revolta diante dos males que a ameaçam, para que possa aceitar com amor as penas e aflições desta vida de exílio. Uno-me com toda a veemência aos vossos méritos, às vossas dores, à vossa expiação, às vossas lágrimas, para poder trabalhar convosco na obra da salvação. Possa eu ter a força de fugir ao pecado, causa única da vossa agonia, do vosso suor de sangue, e da vossa morte.

Afasteis de mim o que vos desagrada, e imprimi no meu coração com o fogo do vosso santo amor todos os vossos sofrimentos. Abraçai-me tão intimamente, em abraço tão forte e tão doce, que nunca eu possa deixar-vos sozinho no meio dos vossos cruéis sofrimentos.

Só desejo um único alívio: repousar sobre o vosso coração. Só desejo uma única coisa: partilhar da vossa Santa Agonia. Possa a minha alma inebriar-se com o vosso Sangue e alimentar-se com o pão da vossa dor!

Amém.
Paixão de Cristo, confortai-me !

18 de fev. de 2008

Estamos no Tempo da Quaresma - Tempo de conversão !


Preparação para a Páscoa


"Precisamente por sermos pecadores, ficamos cegos diante de nossos pecados. Satanás quer nos fazer ver que não há mal no que fazemos. Então o coração se endurece, torna-se insensível às exigências do amor. Por isso é tão importante a conversão do coração. "


"Por isso, como diz o Espírito Santo: "Se escutardes hoje MINHA voz, não endureceis o coração... Atenção irmãos! Que nenhum de vós tenhais um coração mau e incrédulo..." Hb 3.


Deus é um Pai amoroso que nos faz ver o pecado para nos dar a graça do arrependimento e nos perdoar. O nos quer livres. O demônio não quer que vejamos nosso pecado. Mas se procurarmos o caminho de Deus tratará de nos acusar com nossos pecados para que nós desanimemos e voltemos atrás. Podemos discernir então a diferença. Deus mostra o pecado para libertar e perdoar; o demônio o esconde mas quando o mostra é para que nos desesperemos. Devemos rejeitar energicamente estes pensamentos e ir à confissão com toda confiança no perdão de Deus. Deus SEMPRE perdoa quando há arrependimento.


É muito proveitoso fazer exame de consciência diário e também, com toda humildade, e deixar que pessoas próximas de nós nos corrijam. "Se examinássemos a nós mesmos, não seríamos condenados." (1 Cor. 11, 31)


O exame se faz diante de Deus, escutando sua voz na consciência.
Preparação para a confissão


Preparação remota: Educamo-nos na fé, pelo estudo do Santos Evangelhos, o Catecismo, leitura dos Santos, participação nos ensinamentos... A prática séria do que aprendemos. O exame diário de consciência.


Preparação imediata: O exame de consciência antes de confessar. Vamos a um lugar tranqüilo, preferivelmente diante do sacrário... Só Deus pode iluminar sobre nossa realidade e nos dar os meios para responder à graça.


Contemplamos a vida de Jesus e seu amor manifesto em Sua Cruz. "Contemplai ao que transpassaram" Jo 19:37. Como respondi a tanto amor, a tantas graças?. Examinamos nossa vida diante da lei de Deus. Por isso ajuda ter um exame escrito que nos recorde o que esquecemos. Recordamos que não se trata de sugestões, Deus nos deu MANDAMENTOS. Quebrá-los é quebrar nossa aliança com Deus e cair em pecado.


Não se trata tão somente de enumerar pecados mas sim de descobrir a atitude do coração e com DOR POR NOSSOS PECADOS, FAZER O FIRME PROPÓSITO DE NÃO VOLTAR A COMETÊ-LOS.

Confissão é o meio certo de eu receber o perdão de meus pecados. Foi Jesus quem deu aos sacredotes o poder de perdoar os nossos pecados. Jesus falou: "A quem vocês perdoarem os pecados, os pecados serão perdoados" (Jo 20,19-23).


Só a confissão bem feita é que perdoa os pecados. Para a confissão ser bem feita, eu preciso:

do EXAME para eu achar os meus pecados;

do ARREPENDIMENTO para eu ter mágoa de ter desobedecido a Deus (Lc 18,13; Mt 26,75; Lc 15,21);

do PROPÓSITO e da vontade séria de não querer pecar mais;

da CONFISSÃO para eu contar meus pecados ao padre;

da SATISFAÇÃO para eu rezar aquilo que o padre mandar.

PECADO ESQUECIDO na confissão fica perdoado se eu fiz bem o Exame de Consciência.

PECADO ESCONDIDO na confissão não fica perdoado, eu não posso comungar e tenho de fazer outra confissão. A confissão é nula e comete-se sacrilégio.


Está errado pôr comida limpa em prato sujo. Está errado receber Jesus num coração sujo de pecado grande. Primeiro a gente lava o prato e depois põe a comida. Primeiro eu tenho de lavar minha alma com uma confissão bem feita e depois ir receber a Jesus na Sagrada Hóstia (São Paulo, 1ª Ep. aos Corínthios, cap. 11, 23-29, nos lembra disso).

Reconhecer-se Pecador :

"Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a culpa" (1Jo 1,8-9).

Exame de Consciência para Antes da Confissão

Examinemos cuidadosamente a nossa consciência, sem ansiedade nem escrúpulo, procurando conhecer a espécie e o número dos pecados cometidos.
Sobre a Confissão precedente:
* Quando foi minha última Confissão?
* Esqueci ou escondi alguma falta grave?
* Deixei de cumprir a penitência imposta?

Mandamentos da Lei de Deus:

1° Mandamento:
* Falei com desprezo ou leviandade de Deus, das coisas santas ou das pessoas consagradas a Deus?
* Li escritos, livros e jornais contrários à religião?
* Tive vergonha de minha fé ou omiti os meus deveres por simples respeito humano?
* Faltei com o devido respeito na igreja, comportando-me mal, conversando sem necessidade, rindo, olhando para todos os lados?
* Comunguei sabendo que estava em pecado mortal?
* Murmurei contra a Divina Providência?
* Assisti a alguma sessão espírita ou reunião herética?
* Consultei cartomantes, feiticeiras ou astrólogos?

2° Mandamento:
* Pronunciei o nome de Deus irreverentemente?
* Blasfemei, isto é, disse palavras injuriosas contra Deus ou os Seus Santos?
* Jurei falso ou sem necessidade?
* Fiz promessas ou votos que não cumpri?

3° Mandamento (1° e 2° da Igreja):
* Deixei de assistir a Missa inteira em Domingo ou festa de guarda?
* Cheguei atrasado à Missa?
* Em que ponto?
* Saí da igreja antes do fim da Missa?
* Em que momento?
* Trabalhei em dia de Domingo ou santificado?
* Por quanto tempo?

4° Mandamento:
* Deveres dos pais:
* Tenho faltado com a atenção e solicitude devida aos meus filhos?
* Deixei de corrigi-los?
* Corrigi-los em excesso ou injustamente?
* Negligenciei dar a eles uma boa educação cristã, ensinando-os a rezar e conhecer os elementos da religião e mandando-os para uma boa escola?
* Confiei-os a pessoa cuja influência possa ser prejudicial?
* Opus-me injustamente a que seguissem sua vocação?
* Dei a eles mau exemplo?
* Deixei de vigiar suas leituras (maus livros, maus jornais e revistas) ou programas assistidos (contrários à Fé e à Moral)?
* Deixei que frequentassem locais (casas, oficinas, teatros, cinemas, reuniões, festas...) onde corresse perigo sua fé e virtude?
Deveres dos filhos:
* Faltei com o respeito e a veneração devidos aos meus pais e avós?
* Desejei-lhes mal?
* Fui causa de tristeza para eles?
* Quis ameaçá-los?
* Quis bater neles?
* Maltratei meus irmãos e irmãs?
* Tenho ciúmes deles?
* Fiz queixa deles para que fossem castigados?
* Faltei com o respeito a meus pais, por palavras, ares de pouco caso, injúrias ou envergonhando-me deles?
* Desobedeci a eles?
* Deixei-os zangados?
* Deixei de assistir a suas necessidades, de rezar ou mandar rezar em sua intenção, tanto em vida quanto depois da morte?
* Fui respeitoso e obediente com os meus professores?
* Fui educado para com meus empregados?
Deveres dos superiores (patrões, oficiais das Forças Armadas, executivos, etc.):
* Faltei com a justiça, não pagando o salário devido ou castigando injustamente?
* Recusei a meus subalternos a liberdade de cumprirem seus deveres com a Igreja Católica Apostólica Romana?
* Deixei de instruí-los na verdadeira Fé?
* Deixei de vigiar a fé e os costumes de meus subalternos?
* Dei a eles maus exemplos?
* Fui áspero, desconfiado, caprichoso, altivo, desdenhoso?
Deveres dos inferiores (empregados, operários, soldados):
* Faltei com a justiça, não cumprindo as obrigações de meu ofício?
* Faltei com o respeito a meus superiores?
* Causei-lhes dano com críticas injustas?
* Abusei da confiança deles?

5° Mandamento:
* Tive ódio do meu próximo ou desprezei-o?
* Desejei-lhe mal?
* Que mal?
* Fui áspero com os infelizes, os fracos, os pequenos?
* Recusei o perdão das injúrias, dos danos e dos aborrecimentos que me causaram?
* Existe alguém a quem, por ódio ou por rancor, eu recuse a palavra ou o serviço?
* Maltratei alguém ou lhe causei dano na vida ou na saúde?
* Semeei discórdias, espalhando boatos falsos ou verdadeiros?
* Induzi o próximo ao mal?
* De que maneira?
* Escandalizei alguém com maus conselhos e maus exemplos?
* Desviei alguém dos seus deveres?
* Emprestei maus livros, maus jornais ou revistas, más fitas de vídeo, que facilitem e induzam ao pecado?
* Deixei de impedir o mal, podendo fazê-lo?
* Expus a minha vida por imprudência, vaidade ou falta dos devidos cuidados?

6° e 9° Mandamentos:
* Consenti em pensamentos ou desejos contrários à pureza?
* Falei, li, vi ou escutei, de propósito, indecências?
* Cantei ou ouvi cantar músicas obscenas?
* Consenti em olhares ou ações indecentes?
* Usei roupas indecentes?
* Fiz leituras ou assisti a filmes indecentes, levianos ou maus?
* Expus-me a ocasiões das quais deveria fugir?
* Frequentei festas, bailes, espetáculos ou cinemas perigosos ou imorais?
* Pratiquei atos que não devem ser praticados fora do casamento?
* Namorei com alguém, sem vistas ao casamento?
* Cometi atos imorais comigo mesmo ?
* Cometi atos imorais com o próximo ?

7° e 10° Mandamentos:
* Causei dano aos bens do próximo?
* Retive o que não me pertencia ou aproveitei-me disso?
* Deixei de reparar o dano causado aos bens do próximo?
* Negligenciei pagar minhas dívidas?
* Guardei objetos encontrados, sem procurar o legítimo dono?
* Desejei apossar-me injustamente dos bens alheios?

8° Mandamento:
* Suspeitei ou pensei mal do próximo sem motivo?
* Falei mal do próximo, tendo ou não razão, de modo a causar-lhe dano à reputação ou aos bens?
* Induzi os outros à calúnia (dizer que alguém cometeu um mal que na verdade não cometeu) ou à maledicência (dizer que alguém cometeu um mal realmente cometido)?
* Ultrajei o meu próximo com injúrias, ares desdenhosos ou zombarias?
* Menti e com isso causei dano?
* Fui indiscreto, descobrindo coisas que devia calar, lendo ou abusando de cartas dirigidas aos outros?
* Reparei o dano causado?
Mandamentos da Santa Igreja:
* Deixei de me confessar ou de comungar na Páscoa?
* Deixei de jejuar conforme manda a Igreja?

Pecados capitais:

Orgulho:
* Desprezei gravemente meu próximo por orgulho?
* Fiquei ofendido por pouca coisa ou me deixei dominar pelo mau humor?
* Tive pensamentos vaidosos?
* Afastei o próximo, os pobres, os indefesos, falando com eles de cima para baixo e sem consideração?
* Passei tempo demais escolhendo roupas, penteados ou maquiagens?
* Me preocupei demais com o que os outros pensariam de minha aparência?

Avareza:
* Tenho muito apego ao dinheiro?
* Deixei de dar uma esmola que eu tinha condições de dar?

Inveja:
* Fiquei feliz com a desgraça dos outros?
* Fiquei triste ao ver o bem que acontece aos outros?
* Invejei o meu próximo?

Gula:
* Comi ou bebi mais que a minha fome real?

Cólera:
* Fui impaciente ou violento?
* Encolerizei-me?
* Guardo rancor?

Preguiça:
* Deixei de cumprir os meus deveres religiosos?
* Deixei de cumprir as minhas obrigações de estudo ou trabalho?
* Deixei de ajudar a quem me pediu, por preguiça apenas?
* Tenho sido vadio ou desocupado?

Obras de Misericórdia


-Corporais: caridade com doentes/famintos/sedentos/presos/nus/forasteiros Enterrar os mortos. Vejo estes como irmãos pelos quais me entrego?.


-Espirituais: dar bom conselho/ corrigir/ perdoar (guardo algum ressentimento?)/ consolar/ sofrer com paciência as moléstias do próximo/ rezar pelos vivos e os mortos.

-Estou atento à dor alheia?; Faço a acepção de pessoas segundo sua aparência? -Vivo em simplicidade?; -Imito a Cristo que foi pobre?, sou livre de apegos materiais?-Isto se reflete em minha atitude nas compras?; deixo-me levar por desejos?; quais?-Coopero com as obras da Igreja com verdadeiro sacrifício e amor, tenho caridade com os pobres doando ou ajudando-os em suas necessidades ?

-Me esforço de todo coração para que Cristo seja conhecido e amado por todos?-Estou em comunhão com o espírito missionário da Igreja?-Levo a minhas amizades ao Senhor ou deixo que elas me arrastem ao mundo?


Bem-aventuranças (Mateus 5, 1-2)
-Fui pobre de espírito, livre de apegos?,-Fui manso, paciente, edificando com os meios Santos?-Chorei diante dos pecados que ofendem a Deus?-Ttive fome e sede de justiça?-Fui misericordioso?-Fui limpo de coração, puro de pensamento?-Trabalho pela paz, em minha pessoa, lar, grupo, mundo?-Sofro com alegria ao ser perseguido por causa da justiça (como reajo diante das critica "injustas" ou incompreensões?

Ato de Contrição:

Senhor meu, Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas e porque Vos amo e estimo, pesa-me, Senhor, de todo o meu coração de Vos Ter ofendido e merecido o Inferno; e proponho firmemente, ajudado com os auxílios de Vossa Divina Graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender; e espero alcançar o perdão de minhas culpas por Vossa infinita misericórdia. Amém.

Fontes :
1 - Aci Digital



Jejum não dói!

“Penitência! Penitência! Se não fizerdes penitência, todos vós perecereis”. Assim pregou o Divino Mestre, e a Igreja o repete aos fiéis, agora, no tempo santo da Quaresma. Na quarta-feira de cinzas, o sacerdote, deitando sobre nossas cabeças o pó, lembra-nos o que somos e o que seremos. “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. Lembra-te, homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.

É o pensamento da morte eficaz para nos ajudar a fazer penitência. Que valemos? Que somos? Oh! Se soubéssemos meditar tão grande verdade, não seríamos tão insensatos!
O pensamento da morte converteu Santa Margarida de Cortona, São Francisco Borja e os fez grandes heróis da santidade.

Duas vezes a Liturgia da Igreja nos convida à meditação da morte — na quarta-feira de Cinzas e em Finados.
O mundo ri-se da penitência, porque não a compreende. É insensato, não pensa e despreza o que é eterno. O homem animal, diz São Paulo, não percebe as coisas do espírito e de Deus. É de se estranhar que despreze e odeie a penitência?
Para a conquista do céu não há outro meio a nós, pobres pecadores. Há só dois caminhos para a salvação eterna. Inocência ou penitência. Somos inocentes? Então? Resta-nos a tábua da penitência para que nos salvemos neste naufrágio de tantas e tamanhas misérias e pecados.
A Igreja reserva-nos o tempo da Quaresma para a reparação de nossos pecados na oração e no jejum. Jejum não mata a ninguém. Estas meninas de regime para emagrecimento elegante jejuam rigorosamente por vaidade, por tolice mundana. E por amor de Deus, e para a salvação? Não admitem uma simples abstinência de carne.
Ai de vós! Diz lá o Evangelho que perecereis. Omnes vos similiter peribitis. Todos perecereis. E a vossa perdição será eterna. Cuidado! O jejum é penitência eficaz, abranda as revoltas da carne, purifica nossa alma, enche-nos de graças. Na Quaresma se há de jejuar. É preceito da Igreja.
Sem penitência o pecador não se salva. E não é tão grande penitência o jejum preceituado pela Igreja! Um leve sacrifício para reparação de enormes pecados!
Muita gente delicada e mole se horroriza com o jejum. É a legião dos inimigos da cruz de Jesus Cristo no expressivo dizer de São Paulo. E quando não insultam a Igreja e combatem o jejum, certos cristãos, de idéias pagãs e gozadores da vida, arranjam a desculpa de que é prejudicial à saúde.
Está o cemitério povoado de gulosos e dos que passaram para a eternidade após os excessos de banquetes e bebedeiras. Pouca gente morre de fome, e muita de indigestão. Que o digam os médicos e os coveiros. Vida de jejuns e penitências levam os monges, e morrem velhinhos e de cabelos brancos.
Os cartuxos, por exemplo, não comem carne nem quando enfermos. Durante oito meses do ano comem uma só vez ao dia. Toda sexta-feira jejuam a pão e água. Apesar disto gozam ótima saúde. E dizem os médicos, e está provado com fatos: “Na Cartuxa as enfermidades são raras e a longevidade freqüente”. Urbano V quis mitigar os rigores da Regra cartuxa, por julgá-la excessiva em austeridades e talvez insuportável. Os monges pediram a Sua Santidade que não suavizasse a velha regra de São Bruno. E para provar que não prejudicavam a saúde, nem abreviavam a vida os jejuns de Cartuxa, mandaram a Roma uma comissão de vinte e sete cartuxos, dos quais o mais jovem contava apenas... oitenta e oito anos... Diante disto, o Papa cedeu.
Ó delicados cristãos, inimigos da cruz e do jejum; não haverá perigo: o jejum da Quaresma não vos matará! O jejum é medicinal, evita muita moléstia, descansa o estômago, faz bem à alma.
Não vos assuste a ligeira penitência da Quaresma. Outrora, nos tempos de mais heroísmo e de fé, jejuava-se na Quaresma a pão e água nas sextas-feiras.
Hoje está o jejum mitigado e tão suave! Pois, ainda assim, não o querem fazer! Ressoe aos vossos ouvidos delicados a voz do Evangelho: Se não fizerdes penitência... perecereis. E... todos... todos...
Do livro Variações do ‘Meu Cantinho’
Monsenhor Ascânio Brandãopágs. 212-214 - Ed. Vozes, 1951


O Valor da Santa Missa

Autor: Pe. Martinho de Cochem - (Rito Tridentino)

Fonte: Agnus Dei

Entre todos os mistérios do Senhor, a meditação que nos é mais útil e merece de nossa parte mais reconhecimento e veneração, é a Paixão dolorosa, pela qual fomos resgatados. Os santos Padres dizem, a este respeito, coisas sublimes e garantem, da parte de Deus, grande recompensa às almas que nela meditam com fervor.

Há muitos modos para bem honrar a Paixão: contudo, nenhum parece mais perfeito do que a piedosa assistência à santa Missa, visto que a Paixão e a Morte do Salvador se renovam no altar. Com efeito, na Missa, tudo recorda, tudo simboliza a Paixão.

A Cruz encima o altar. Por toda a parte, vê-se o sinal da Cruz; é marcado cinco vezes sobre a pedra sagrada. Impresso sobre a Hóstia. Desenhado no missal, na página que precede o cânon. Bordado sobre o amicto, o manípulo, a estola, a casula.Gravado na patena, no pé do cálice.O sacerdote o faz dezesseis vezes sobre si mesmo, e vinte e nove vezes, sobre a oferenda. Quantos indícios do renovamento do Sacrifício da Cruz! §1.

De que maneira Jesus Cristo renova sua Paixão? Embora Nosso Senhor tenha dito na última Ceia: "Fazei isto em memória de mim", contudo o Sacrifício da Missa não é uma simples memória, porém a renovação da Paixão. A Igreja ensina: "Se alguém disser que o Sacrifício da Missa é apenas a lembrança do Sacrifício consumado na Cruz, seja anatematizado". E noutra parte: "No divino Sacrifício está presente e imolado, de modo incruento, o mesmo Cristo que se ofereceu uma vez, de modo cruento, sobre o altar da Cruz".

Este testemunho, por si, deveria bastar, pois que somos obrigados a crer tudo o que a Santa Igreja nos ensina. Entretanto, a Igreja explica-se da forma seguinte:"A vítima que se oferece pelo ministério do sacerdote, é a mesma que foi oferecida na Cruz; somente difere a forma de oferece-la". Sobre a Cruz, Jesus Cristo foi imolado, de modo cruento, pelas mãos sacrílegas dos carrascos; no altar, imola-se pelo ministério dos sacerdotes, de modo místico. A Igreja emprega muitas vezes, no missal, a palavra "imolar".

Santo Agostinho serve-se dela igualmente:"Jesus Cristo foi imolado, uma vez, de maneira cruenta, sobre a Cruz; é agora imolado cada dia, sacramentalmente, pela salvação do povo" (Epist. Ad Bonifac).

Esta expressão é notável e acha-se, mais de cem vezes, na Escritura Sagrada para designar a oblação dos animais. Se a Igreja se serve dela a respeito da santa Missa, é para indicar que o Santo Sacrifício não consiste somente na pronunciação das palavras da consagração nem na elevação das espécies sacramentais, mas na imolação verdadeira, embora mística, do divino Cordeiro. "A Paixão de Cristo é o próprio sacrifício que oferecemos" diz São Cipriano (Epist. Ad Caeciliam). Em outros termos: "Quando celebramos a santa Missa, renovamos todas as cenas da Paixão de Cristo".

São Gregório é ainda mais explícito: "Aquele que ressuscitou dentre os mortos, diz ele, não morre mais; entretanto, sofre ainda por nós, de maneira misteriosa, no santo Sancrifício da Missa" (Homilia 137). Teodoreto não é menos claro: "Não oferecemos outro sacrifício senão o que foi oferecido sobre a Cruz" (In cap. 8 Hebr.).



Vida de Oração

Senhor, ensina-nos a orar! (Lc 11,1)

Um mestre convence mais pela vida do que pelas palavras.Os discípulos de Jesus estavam convencidos que valia a pena orar como o seu Mestre.


Foi na mais bela oração do cristianismo - o Pai Nosso - que muitos místicos e mestres de oração beberam a essência desta arte incomparável que se chama ORAÇÃO. Arte que não depende da habilidade humana, mas do auxílio sobrenatural do Espírito Santo que ora em nós com gemidos inefáveis: "Abbá, ó Pai".


Santa Teresa de Jesus, considerada uma grande mestra de oração, disse um dia às suas carmelitas que lhe pediram que as ensinasse a orar: "Chegai-vos para junto deste Mestre,
muito determinadas a aprender o que vos ensina e Ele fará com que sejais boas discípulas.

Olhai as palavras que diz aquela boca divina: logo à primeira (Pai nosso)
entendereis o amor que nos tem." (CP 26,11)


Noutro texto, para mostrar que nenhuma limitação poderá impedi-las de orar, Santa Teresa sintetizou numa pequena frase imortal um tratado de oração:

"Orar não consiste em pensar muito, mas sim em amar muito."

"Falar do Carmelo é falar de "oração", e oração silenciosa, em solidão com Deus só. Para que esta vida de oração e contemplação do Deus vivo seja possível e plena, Santa Teresa organizou a vida das carmelitas firmada em alguns pontos essenciais. No seu livro "Caminho de Perfeição" a Santa apresenta a humildade, o esquecimento de si ou desapego como elementos básicos para uma vida de oração. Formando pequenas comunidades orantes, onde todas "devem se amar, se querer, se ajudar", Teresa apresentou à Igreja de seu tempo e de todos os tempos uma forma de vida contemplativa capaz de renovar o interior e assim renovar toda a Igreja.

" O carmelita secular deve ser um apaixonado por Deus, desejoso de buscar o seu rosto e contemplá-lo no silêncio da oração; alimentar sua vida espiritual na fonte genuína da Palavra de Deus, que, segundo a Regra, deve ser meditada dia e noite. Um conhecedor profundo dos escritos dos místicos do Carmelo para poder difundir, com conhecimento, amor e competência, a espiritualidade carmelitana."

" O carmelita descalço secular é aquele que, como Elias, “revoltado com as novas idolatrias”, destrói os ídolos e toma o caminho do deserto, até chegar à montanha de Deus, o Horeb, para buscar ao Senhor. (Frei Patrício Schiadini - " O mundo é meu Carmelo - Ed Loyola)

10 de jan. de 2008

Espiritualidade Carmelitana


A coerência entre oração e a vida
Autor: Pe. Valdo Bartolomeu de Santana


“TUA VIDA FALA TÃO ALTO QUE NÃO CONSIGO OUVIR TUAS PALAVRAS”


É certo que, quanto mais limpa e comprometidamente se viva a vocação cristã, tanto mais fácil se tornará o exercício da oração àqueles que não têm capacidade para discorrer sobre os mistérios da fé. Mas, em linha de verdade, cada dificuldade afeta profundamente a todos, porque surge da própria essência da oração, concebida como amizade. Ser amigo para tornar praticável o fazer amizade.

Nos dez primeiros capítulos da Autobiografia de Santa Teresa de Ávila, sobressai uma afirmação clara: a oração, a que se entregou, sem dúvida, com decisão, não consegue conquistar a sua vida. Pelo menos,na medida das exigências mais elementares da amizade: doação totalitária, não pactuar com a mediocridade. A oração reduzia-se a uns tempos, mais ou menos longos, e até mais ou menos intensos, de trato amistoso com Deus. Reconhece comsimplicidade que “as suas deter-minações e desejos – por aquele momento, digo – estavam firmes”. Determinações de ser, de corres-ponder ao amor com amor. Mas não tinha continuidade. “Não bastavam determinações”para não voltar a cair quando me punha na ocasião. Conclui, com razão: “Pareciam-me ser lágrimas enganosas”.

Por quê? Dá no alvo quando escreve: “todo o mal vinha de eu não cortar. Concretamente, em guardar todo o seu amor para Deus. “Com isto se remediava tudo.” Porque andava escrava. Sobre isto não faltava luz à sua consciência. “E quão atada me via para não me determinar a dar-me de todo a Deus”. Optou pelo caminho da “maioria”: rebaixar o nível de exigências, contemporizando com os pedidos da natureza. Exprime-se assim: “Parecia-me melhor ainda andar com os demais - ... – e rezar o que estava obrigada, e vocalmente, e não ter oração mental e tanto trato com Deus”.

Quando exortar os seus discípulos a darem-se incondicionalmente e com totalidade, se querem chegar à contemplação, isto é, a uma verdadeira e íntima união com Deus, apresentará o seu testemunho: “Assim, pois, filhas, se quereis que vos diga o caminho para chegar à contemplação...” empenhai-vos na reforma da vossa vida – “prática de virtudes”- , caso contrário, “eu vos asseguro e a todas as pessoas que pretendem este bem ( e bem pode ser que me engane, porque julgo por mim que o procurei vinte anos), que não chegareis à verdadeira contemplação”. Fecha o caminho da oração quem não se conforma às exigências do amor.

Teresa de Jesus dedicava-se à oração. Muita oração. As monjas viam-na apartar-se “muitas vezes à solidão a rezar e ler muito”.Mas não vivia a oração (fato relacionado à sua vida, antes da Reforma). Consagrava-lhes tempos, mas não era orante. Não há motivos para continuar a descrever do que se trata e até onde chegou Teresa pelo “caminho da maioria”.

Fala-nos de experiência de “ataduras”,“escravidão”, “cegueira”. De querer “tratar com Deus e com o mundo”. Coisa impossível, a luta titânica por “juntar estes dois contrários, tão inimigos um do outro, como são vida espiritual e contentos e gostos e passatempos sensíveis”.

Com frase insuperável: “Procurava... ter oração e viver a vida. O resultado era desolador: “Nem gozava de Deus nem achava contentamento no mundo”. Uma situação assim não pode sustentar-se por muito tempo. A oração não ganha a vida. E a vida começa a minar a oração. A corda sempre se quebra pelo lado mais fraco. E, no caso de Teresa, o lado mais fraco era a oração.E por aí se quebrou. O abandono da oração arrastou consigo toda a vida. É a altura em que a vida espiritual de Teresa atinge o nível mais baixo.

A vida é sempre o termômetro da oração que existe e da oração que falta. O abandono da oração precipita o desmoronamento espiritual de Teresa, como edifício em ruínas a que se tiram as escoras que o sustêm. Confessará humilde e assustada:

“Este foi o mais terrível engano”; “julgo não ter passado perigo tão perigoso”. A sua confissão é uma advertência: que ninguém a siga por este caminho. Que ninguém abandone a oração por ruim e pecador que seja. “Deixar a oração é perder o caminho”. A vida ruim não deve levar ao abandono da oração mas à sua intensificação.

Peçamos a Nossa Senhora do Carmo a graça da nossa perseverança no caminho da oração, para sermos bons e fiéis irmãos e irmãs terceiros carmelitas. Salve Maria !